4º Seminário do SEEG debate rumos para a descarbonização do Brasil

auditorio

Foi realizado no dia 27 de outubro no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, o 4º Seminário Nacional sobre Emissões de Gases de Efeito Estufa – Como descarbonizar o Brasil até 2050.

O SEEG apresentou os principais dados sobre emissões brasileiras de gases de efeito estufa no ano de 2015 nos setores de energia e processos industriais, agropecuária, mudança de uso da terra e resíduos, com a constatação do aumento de 3,5% nas emissões brasileiras totais em relação a 2014. De acordo com o relatório, o Brasil emitiu 1,927 bilhão de toneladas brutas de CO2 equivalente (CO2e, a soma de todos os gases de efeito estufa convertidos em dióxido de carbono) no ano passado, contra 1,861 bilhão de toneladas em 2014. O evento promoveu também palestras sobre descarbonização do país até 2050 e um painel sobre o cumprimento das metas da NDC estabelecida no Acordo de Paris.

O crescimento das emissões relatado pelo SEEG está relacionado ao índice de desmatamento, que aumentou 24% na Amazônia em 2015 em relação a 2014, de acordo com dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). As emissões brutas de uso do solo, por exemplo, cresceram 14% durante o período. Nos setores de processos industriais, agropecuária e resíduos as emissões não variaram significativamente em relação a 2014, e no setor de energia houve queda pela primeira vez desde 2009, de 5,3%. Isso se deve principalmente à desaceleração econômica e ao avanço das energias renováveis. Leia análise do Observatório do Clima sobre os dados de emissões nos setores aqui. Os dados foram apresentados por Tasso Azevedo, coordenador do SEEG; David Tsai, do IEMA; Marina Piatto, coordenadora da iniciativa de Clima e Agropecuária do Imaflora; Igor Albuquerque, gerente de mudanças climáticas do ICLEI, e Heron Martins, pesquisador do Imazon.

“Nós temos que nos ver como um país de florestas, elas são a grande resposta do Brasil ao risco do aquecimento global”, disse o climatologista Carlos Nobre ao abrir as falas do painel sobre descarbonização realizado após a apresentação dos números do SEEG, abordando o tema de uso do solo. “O desmatamento zero é possível. Precisamos de políticas públicas que diminuam a ilegalidade e incentivem um novo modelo que segure as fronteiras agrícolas e mostrar ao agricultor que o lucro não está na expansão da fronteira, e sim do aumento da produtividade. A agricultura brasileira está longe de seu potencial máximo nesse sentido”, apontou.

Ainda durante seu painel, Nobre salientou o desafio brasileiro em relação à pecuária: “Setenta por cento das emissões diretas da agricultura vêm da pecuária. A solução é o estoque de carbono”, afirmou. O climatologista reforçou a importância da regeneração natural de florestas nesse contexto: de acordo com dados do WRI (World Resources Institute) apresentados pelo pesquisador, o potencial de regeneração natural de florestas brasileiras é de 21,35 milhões de hectares, que podem absorver de 4 a 5 toneladas de carbono por ano por hectare.

Em seguida, subiu ao palco do SEEG o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Luiz Augusto Barroso, apresentando dados da matriz elétrica brasileira e perspectivas sobre investimentos governamentais no setor. O matemático e fã de heavy metal destacou a importância do sistema hidrelétrico para ajudar a impulsionar a geração renovável, servindo para garantir um preço competitivo de energias como a eólica: “As renováveis no Brasil só são competitivas em preço porque nós temos os reservatórios. A batalha pelas hidrelétricas é uma batalha das renováveis. Se não tivermos hidrelétricas, o custo aumenta muito e o Brasil perde competitividade”, explicou. Durante períodos de pouco vento, por exemplo, os reservatórios seriam uma espécie de “garantia”.

Porém, Barroso afirmou que restrições sociais ou ambientais podem resultar numa busca por alternativas, em uma sinalização de uma possível mudança nos investimentos no sistema por parte do governo. “Hoje o desenvolvimento hidrelétrico do Brasil tem que ser uma escolha. Não vamos ficar de mimimi, se não tivermos as hidrelétricas, vida que segue, vamos procurar uma alternativa, mais cara ou mais barata, torçamos que seja mais barata”, disse.

O terceiro a falar ao público foi o diretor-executivo do Instituto Escolhas, Sérgio Leitão, para quem a resposta para a descarbonização do Brasil está principalmente na química verde e na mudança de produção de energia elétrica. “Já estamos descarbonizando a economia brasileira, especialmente pelo desmantelamento da indústria pesada”, disse. Esse enfraquecimento tem ocorrido por causa de preços elevados de energia e da competição da China, de acordo com Leitão. “A resposta é química verde. O grande futuro da indústria passa fundamentalmente por uma união da indústria e agricultura em torno de produtos naturais”, afirmou, citando exemplos de empresas brasileiras que estão caminhando para iniciativas do tipo. O advogado questionou também a exploração do pré-sal, cujas emissões não condizem com compromissos assumidos pelo Brasil, e o setor elétrico. “Nosso grande desafio é mudar a maneira como se produz energia elétrica no Brasil. Pensamos que para cada unidade de PIB a produzir, é preciso uma unidade de energia. Precisamos inverter esse raciocínio: para cada unidade de PIB, menos a produzir, atualizando o setor para um pensamento que já é presente em muitos países desde os anos 1980.”

Concluindo o painel, o Secretário do Meio Ambiente de Pernambuco, Sérgio Xavier, falou sobre iniciativas urbanas para descarbonização, apresentando iniciativas de Pernambuco e Fernando de Noronha para uma economia verde, como a produção de biocombustíveis para a aviação na cidade, e citou a importância de ferramentas digitais na conscientização dos cidadãos e fiscalização das ações do poder público em relação ao meio ambiente: “Informações dispersas, muitos planos e pouca implementação, falta de informação para a sociedade, que não sabe para onde estamos indo e não pode pressionar os responsáveis, com tudo isso fica muito difícil gerenciar nossos bens do dia a dia”, disse Xavier. “Precisamos garantir que os modelos de hoje, que geram muito emprego, não entrem em colapso gerando um problema social no processo de transição para o baixo carbono. É preciso dialogar com as indústrias emissoras e construir o processo de forma equilibrada”, salientou, falando sobre aliar a descarbonização à redução da desigualdade.

Após o painel, o evento do SEEG contou com uma mesa redonda sobre os desafios para o cumprimento da NDC brasileira. Participaram o coordenador de políticas públicas do Greenpeace, Marcio Astrini; Elisabeth Farina, diretora-executiva da UNICA (União da Industria da Cana-de-Açúcar); Aloisio Mello, coordenador de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Ministério da Fazenda; Adriano Santhiago, diretor de mudanças climáticas do Ministério do Meio Ambiente; e a moderadora Ana Toni, diretora do Instituto Clima e Sociedade. Durante o debate, foram citados os avanços já realizados pelo Brasil rumo à descarbonização, medidas para adaptação da indústria e reforçou-se a necessidade de investir no combate ao desmatamento. Para Astrini, ainda não está contemplada com a devida importância pelo governo brasileiro. “A crítica maior que temos à NDC brasileira é a questão de floresta, que está resumida no objetivo de acabar com o desmatamento ilegal até 2030”, afirmou. “Devemos apresentar uma meta que nos coloque na situação do que podemos fazer e demonstre liderança para os outros países, com o objetivo de acabar com o desmatamento como um todo, não só o ilegal”, defendeu.

Para ter acesso à base de dados completa do SEEG, metodologias e gráficos de emissões por estados e setores, acesse: http://seeg.eco.br