Agropecuária

​Baixe a apresentação sobre o setor Agropecuária realizada no Seminário Emissões de GEE. 

Baixe as notas metodológicas que explicam como as estimativas do setor Agropecuária foram feitas. 

A agropecuária brasileira também é forte em emissões de gases do efeito estufa. Em 2010, as emissões da agropecuária brasileira representavam cerca de 7% das emissões globais deste setor, sendo o Brasil o 4º maior emissor atrás de China, Estados Unidos e União Europeia, conforme o World Resources Institute (WRI, CAIT2 2013). O Brasil possui uma das cinco maiores áreas de produção rural do mundo, ocupando cerca de 3,3 milhões de quilômetros quadrados com agricultura e pecuária, ou 38% do território nacional, de acordo com o último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referente a 2006. O país produz alimento suficiente para 1 bilhão de pessoas. É o maior produtor mundial de soja, laranja, açúcar, etanol, carne e frango. Tem o segundo maior rebanho bovino do mundo. Está entre os três maiores exportadores de produtos agrícolas e é o maior exportador de proteína animal.

No período 1990-2012, o setor passou de um total de emissões de 303,7 milhões de t CO2e para 440,5 milhões de t CO2e (GWP), um crescimento de 45%. Considerando a redução das emissões em Mudanças do Uso da Terra, devido à queda dos desmatamentos (como veremos adiante), a Agropecuária está se tornando a principal fonte de emissões brasileiras e já representa 29,7% das emissões brutas brasileiras em CO2e.

Entre 1990 e 2012, a agropecuária representou 8.531 MtCO2e ou 18,5% do total nacional de emissões acumuladas.

Emissões brutas de GEE do Setor Agropecuário por gás (t)

Conforme as diretrizes internacionais e o 2º inventário brasileiro, no setor Agropecuário foram consideradas as emissões decorrentes da fermentação entérica dos animais criados; do manejo de dejetos animais; do cultivo de arroz; da queima de resíduos agrícolas e dos solos agrícolas, estas decorrentes da fertilização nitrogenada e de organossolos cultivados. 

Não são contabilizadas nesta sessão as emissões relativas à conversão de uso do solo (ex. de florestas pastagens, de um tipo de lavoura em outro), todas incluídas no setor Mudanças do Uso das Terras. Também não foram consideradas as emissões relacionadas à produção de energia, inseridas no setor de Energia. 

Emissões brutas de GEE do Setor Agropecuário (tCO2e)

Individualmente, a fermentação entérica do gado bovino responde pela maior parte das emissões do setor agropecuário. Isso se deve ao tamanho do rebanho bovino brasileiro – cerca de 210 milhões de cabeças, em 2012 – e ao fato do boi ser um grande ruminante, dependendo, portanto, da fermentação realizada por bactérias em seus estômagos para converter pasto em carne ou leite. Vale atentar para o fato de as emissões por fermentação entérica terem se estabilizado desde meados da década passada, crescendo apenas 2,2% entre 2005 e 2012, contra um crescimento de 6% das emissões de todo setor agropecuário. Isso se deve a uma desaceleração do aumento do rebanho para 1,5% ao ano acompanhado de um aumento da produtividade por cabeça de gado de cerca de 2 a 3% ao ano. 

Em segundo lugar entre as principais emissões agropecuárias está a fertilização nitrogenada dos solos agrícolas. Em 1990, elas eram equivalentes a 32,8% das emissões brutas GWP e, em 2012, passaram para 36,5% do total. A emissão por uso de fertilizantes sintéticos é a que mais cresce em todo setor agropecuário, tendo aumentado 106% entre 2000 e 2012. O Brasil está entre os maiores consumidores de fertilizantes do mundo. 

Emissões brutas de GEE por atividade no setor agropecuário (tCO2e)

Vale notar que os ganhos de produtividade do setor agrícola não dependem exclusivamente da adubação nitrogenada. Muitas outras tecnologias adotadas com o objetivo de incrementar a produção implicam ou podem implicar em reduções de emissões e até no sequestro de carbono, mesmo ao incrementar a produtividade. 

Dada a importância da atividade agropecuária para a segurança alimentar e energética (15% da matriz energética é proveniente de derivados da cana), a geração de empregos, a economia e a conservação dos recursos hídricos e da biodiversidade, a preparação deste setor para uma Economia de Baixo Carbono e a adaptação para as mudanças climáticas é fundamental. 

Em 2010, como parte dos compromissos brasileiros no Acordo de Copenhagen e em consonância com a determinação da Politica Nacional sobre Mudança Clima foi desenvolvido o Programa ABC (Agricultura de Baixo Carbono). O objetivo é promover a redução das emissões de GEE oriundas de atividades agropecuárias, tendo como foco o financiamento diferenciado para práticas agrícolas que, a um só tempo: promovam a redução do desmatamento; aumentem a produtividade; melhorem as práticas agropecuárias de produção; promovam a adequação ambiental das propriedades rurais e a recuperação de áreas degradadas.

As estimativas 1990-2012 ainda não captam os impactos do Programa ABC, tanto pelo curto período em que o plano está em vigor (começou a ganhar escala na safra 2012-2013), como pelo fato de suas ações afetarem principalmente os fatores de emissão da agropecuária. Para os próximos inventários, a revisão dos fatores de emissão a partir de levantamentos primários realizados pela Embrapa e outras instituições permitirá captar os impactos do programa.


Fermentação Entérica

Animais ruminantes contam com uma diversificada “equipe” de bactérias presentes em seus estômagos (rúmen) para digerir capim e grãos. Ao transformar a celulose em energia, por fermentação, essas bactérias produzem metano (CH4). O gás é eliminado principalmente por meio de arrotos. A quantidade de gás exalado por animal varia conforme o alimento, a atividade física e as condições climáticas. Mudanças no manejo do gado ruminante podem reduzir emissões. 

O gado bovino – por ser muito numeroso e de grande porte – é a maior fonte de metano dentre os ruminantes criados o Brasil. Em seguida vêm os rebanhos de ovelhas, cabras, búfalos, cavalos, suínos e outros herbívoros. 

Manejo de Dejetos de Animais

A estocagem de esterco animal favorece a fermentação da matéria orgânica por bactérias, na ausência de oxigênio (anaeróbica). O gás resultante dessa fermentação é o metano (CH4). As maiores emissões brasileiras estão associadas ao tratamento de dejetos de animais confinados, na forma líquida, em tanques ou lagoas. Há um bom potencial de redução dessas emissões, se esse metano for recuperado e utilizado como combustível. 

Cultivo de Arroz 

A decomposição de matéria orgânica em campos de arroz gera metano (CH4) quando acontece debaixo d’água. As principais emissões desse gás, no país, estão associadas ao cultivo de arroz de várzea ou arroz irrigado, sobretudo no Rio Grande do Sul. 

Queima de Resíduos Agrícolas

Na combustão de palhas, caules e demais resíduos de colheita são emitidos diversos gases do efeito estufa: dióxido e monóxido de carbono (CO2 e CO), óxido nitroso e outros óxidos de nitrogênio (N2O e NOx) e metano (CH4). Nos cálculos de emissões, o dióxido de carbono é sempre descontado, pois foi absorvido da atmosfera durante o crescimento da lavoura. A queima de cana ainda é a maior fonte individual dessas emissões, mas sua contribuição diminui com a colheita de cana crua e o uso dos resíduos em caldeiras, aproveitando para co-geração de energia elétrica.

Solos Agrícolas

A aplicação de adubos nitrogenados nas lavouras gera emissões de óxido nitroso (N2O), seja por volatilização (passagem rápida de líquido para gás) ou lixiviação (dissolução por chuvas, passando pelo solo). Inclui tanto fertilização com adubação orgânica como sintética. Também incluem emissões por cultivo de solos orgânicos.


SOBRE OS CÁLCULOS

O cálculo de emissões de metano pela fermentação entérica foi detalhado por unidade da Federação e para cada categoria de animal, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O fator de emissões usado para bovinos distingue entre machos adultos, fêmeas adultas, bovinos jovens e vacas leiteiras. Para os demais animais, adotou-se um único fator de emissão por espécie conforme a metodologia do 2º Inventário Brasileiro de Emissões. 

O manejo de dejetos animais também foi calculado por tipo de gás, por estado e por animal gerador dos dejetos, exceto para suínos, por falta de informações detalhadas. Os dados sobre suínos foram inferidos a partir dos totais do subsetor. Nestas estimativas ainda estão incluídas as emissões derivadas da aplicação de dejetos animais como adubo (esterco); as emissões de dejetos eliminados nas pastagens (pecuária extensiva) e as emissões diretas de solos orgânicos. As fontes de dados foram o IBGE e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

As estimativas de emissões decorrentes do uso de fertilizantes nitrogenados, por unidade da Federação, foram calculadas com base em dados da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (ANDA). Como esses dados não são públicos e são comercializados, eles foram obtidos na biblioteca da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e no site do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Os cálculos incluem emissões, por deposição, lixiviação e volatilização.

As estimativas de emissões para o cultivo de arroz foram detalhadas por regime de cultivo, por ano e por estado. As de emissões de queima de resíduos agrícolas hoje se restringem à queima da cana-de-açúcar. Foram considerados os dados de cada tipo de gás (CH4, CO, N2O e NOx), por ano e por unidade da Federação, sendo que as informações para São Paulo – maior produtor brasileiro de cana (52% do total Brasil, em 2012) – contabilizam os resultados da proibição de queima para colheita, aferido pelo sistema Canasat, com base em imagens de satélite.